sábado, 20 de junho de 2009

Capítulo 33: O homem que tudo sabe

O homem é um ser vivente dotado de palavra. Um ser vivente... Essa palavra nos remete a outra palavra: experiência. Antes de aprofundar esse pensamento, vamos significar a própria palavra ‘palavra’. Ela é quem produz sentido à realidade. Soa um tanto estranho, mas não pensamos com o pensamento, pensamos com palavras. E o pensamento é quem dá sentido ao que somos e ao que nos acontece... E o que nos acontece, agora sim, é nada mais que a própria experiência.

Ao homem contemporâneo está cada vez mais raro vivenciar a ‘experiência’ devido ao excesso de informação. Informação não é experiência. As pessoas sabem cada vez mais sobre tudo. A célebre frase de Sócrates, “tudo o que sei é que nada sei”, parece não funcionar no mundo contemporâneo, o homem contemporâneo diz o tempo inteiro ‘tudo o que sei é TUDO’. O homem que tudo sabe... Esse é o homem moderno, um homem bem informado, um homem que opina um homem que sabe das coisas do mundo, e não importa seja lá o que ‘importa’, o homem moderno sabe!

Supostamente informado. Supostamente experiente. A experiência não é mais vivenciada. O homem contemporâneo conhece Tokyo, London, New York... Sem nunca ter pisado os pés. O homem até conhece a superfície da lua! Aquele astronauta que pisou pela primeira vez não foi o Armstrong, ‘fui eu’, o homem que tudo “sabe”, que tudo “faz”, que tudo “vive”. Apenas através do suporte midiático o homem consegue viajar além das fronteiras terrestres. O homem consegue ir além do infinito: o homem sabe explicar até a origem da vida.

O homem contemporâneo é um obsessivo compulsivo pela informação. Não precisa viver, só precisa estar bem informado para ter, mesmo sem ser solicitado, a sua opinião. A obsessão pela opinião. Há tantas informações que o homem se vê sem tempo para obtê-las, a velocidade do mundo contemporâneo faz o homem correr, o homem vive menos, plugados em tecnologias da informação. A passividade com que obtém a informação é proporcional a sua capacidade de emitir opinião, não há maiores reflexões, pois não há tempo. A informação é verdadeira? A informação é relevante? A informação é ‘sei lá o que’? Não há tempo a perder formulando perguntas, é preciso apenas formular opiniões, sejam elas verdadeiras, relevantes ou ‘sei lá o que’.

Raul Seixas diz em uma de suas canções ‘prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo’. Ele era um grande crítico do sistema. O nosso Raulzito sabia que o homem contemporâneo prefere ‘aquela velha opinião formada sobre tudo’ porque ele quer ser inteligente, bem informado, parecer moderno e atual. Quem não acompanha as novidades do mundo moderno, não é moderno. Quem não sabe quem está no ‘paredão’ (BigBrother/Rede Globo) não é ‘antenado’ com os acontecimentos do mundo.

Se tempo é dinheiro, o tempo já virou mercadoria faz tempo... As pessoas não têm, sobretudo, tempo para viver. O quanto mais informações obtiver num curto período de tempo, melhor. Assim, pode-se viajar de Buenos Ayres a Pequim em segundos. Uma semana é suficiente para um turista conhecer toda a Europa, flashes e mais flashes das câmeras fotográficas de ultima geração, o importante não é a vivência, conhecer a fundo os lugares por onde passou, e sim registrar para mostrar às pessoas os lugares em que esteve, não ‘vivendo’ a emoção de estar porque estava ocupado tirando fotos e mais fotos para mostrar às pessoas! (desculpa a redundância da informação).

O homem contemporâneo não pode parar para nada. Precisa estar ligado a tudo. E assim nada acontece de fato com o homem contemporâneo. As coisas acontecem, mas não são por ele vividas. O homem contemporâneo se torna expectador, platéia... Deixa de ser o sujeito da experiência, nada acontece com ele. O homem moderno é receptivo e passivo, está aberto a receber, não há tempo para refletir, mas para opinar.

Os acontecimentos nos atinge de uma forma totalmente violenta. A guerra das mídias, a era da comunicação mediática causa transtornos a vivência, a experiência. “Você não precisa viver, alguém já está vivendo por você, é só sintonizar a tevê.”. O ‘Big Brother’, fenômeno televisivo há uma década na tevê brasileira, é o grande trunfo para entender o homem contemporâneo, as pessoas assistem passivamente, os personagens são supostamente reais, há uma vida tecnicamente igual a nossa, rotinas do cotidiano numa casa aparentemente comum. Poderia viver o ‘BigBrother’ da minha própria casa, aqui neste momento, mas o que está passando na televisão é muito mais interessante. É interessante ver a bonitinha lavando pratos e cozinhando ao invés de olhar a patroa fazendo a mesma coisa aí do lado... A vida midiática se mostra mais interessante que a real.

O homem se enforca na informação. O homem precisa viver, registrar suas experiências não em centenas de milhares de fotos tiradas com suas câmeras fotográficas digitais de ultima geração, mas registrar em sua memória, ter lembranças suas, não compartilhadas com milhares de outras pessoas. Lembro da queda do muro de Berlim, no final da década de 80, mas eu não estava lá. Eu ainda era uma criança, mas lembro como se eu estive lá, porque eu estava midiaticamente. Lembro da queda das torres gêmeas em New York – graças a Deus eu não estava lá, mas foi tudo tão real que essas imagens se confundem com as minhas lembranças, como se eu também estivesse lá.

Eu lembro de tantas coisas que eu não vivi, que eu não sei... Não tenho uma opinião até que ponto essas experiências que não foram minhas são relevantes à minha vida. Eu poderia muito bem viver sem essa informação da queda das torres gêmeas – me afetou em que? – apenas me causou perplexidade perante o mundo – E isso serve para que? – Por que tanta informação? Qual o sentido disso tudo? Veremos, depois dos comerciais...

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