segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Capítulo 16: Os senhores do futuro

Estude para ser “alguém na vida”. Os pais incentivam os seus filhos dessa maneira. Não é suficiente ir à escola para aprender a ler, escrever e receber o tal “conhecimento”. É preciso ser o tão aclamado e desejado “Senhor Alguém do Futuro”.

Mas não é preciso estudar para ser um “alguém”. O simples ato “existir” já o torna um ser, embora muitos esqueçam disso e dêem valor ao que as pessoas têm e não ao que elas essencialmente são. Há pessoas que não sabem ler e conseguem se “arranjar” na vida. Há pessoas com um mínimo de instrução, conhecedoras de um “bê-á-bá” básico que conseguem ser até mais “dignas” que qualquer “letrado”.

É necessário dizer à criança que ela precisa estudar para aprender sobretudo a ler e que leia para não ser um “analfabeto letrado”. Não basta saber ler, é preciso ler. O acesso ao “conhecimento” no Brasil ainda é caro, revistas e livros são inacessíveis a muita gente por motivos financeiros e inacessíveis acima de tudo por motivos culturais, não é da cultura do nosso país o hábito constante da leitura. É muito fácil dizer à criança “estude”, ela certamente irá achar mais divertido ver televisão.

Mas não faz mal. Afinal, nem todo mundo nasceu para ser um intelectual. Assim como nem todo mundo nasceu para construir estradas e pontes, tocar piano, cozinhar... Uns preferem ler, outros jogar bola. É preciso respeitar e aceitar as particularidades de cada um, não se pode querer obrigar a alguém a ser um intelectual. “Vamos, estude!”. Existem vários níveis de inteligência, uns são inteligentes para solucionar equações matemáticas, outros para declamar poemas de Castro Alves. Por que forçar a alguém que não tem aptidões por Matemática a estudar severamente tal disciplina? É ignorar a individualidade em pró do ideal “intelectuóide”.

Há muito tempo cansei de querer ser apenas um alguém na vida.O nosso modelo educacional é ultrapassado e não atende as nossas reais necessidades. Perdemos uma parte significativa de nossas vidas “aprendendo” teorias e mais teorias que se perdem com o passar dos anos. Não sou pedagogo, mas sou uma vítima desse sistema inútil de ensino.

Que tal estudar “Economia e Finanças Pessoais” ao invés de simplesmente Matemática e suas equações mirabolantes? Ou “Nutrição e Saúde” no lugar de Química? Ou quem sabe “Mecânica Prática” em substituição a Física? Vamos substituir o ensino de Língua Portuguesa e Gramática por “Comunicação e Lingüística”, é a mesma coisa? Não! Aprenderemos a nos comunicar melhor, a dominar muito mais a nossa língua e as respeitar as diversidades. Educação Religiosa quem quiser vá aprender nas milhares de igrejas (há mais igrejas que escolas) e que, em seu lugar, ensinem “Técnicas de Primeiros Socorros”, assim poremos em prática os princípios religiosos de ajuda ao próximo, principalmente quando o próximo mais necessita. E o que você me diz de aprendermos “Legislação Brasileira”, os nossos direitos e deveres perante as leis que regem a nossa nação?

Educação Física não deve ser uma disciplina em que os alunos jogam futebol, tem que ser uma disciplina muito mais teórica do que prática, ensinar os cuidados que devemos ter com o nosso corpo, conhecê-lo mais a fundo, a importância das práticas esportivas, de manter um corpo saudável, enfim, não adianta fazer com que os alunos tenham minutos de “academia” no colégio, é preciso realmente educar.

“Ética e Sociedade” importantíssimo para criar cidadãos. O nosso país precisa de que?! E o que dizer de história? Eu sei mais da história dos Estados Unidos do que a da minha própria cidade, mas isso não é o 'grande' agravante, o estudo de História precisa estar acompanhado de observações críticas, não precisamos decorar todos os mínimos detalhes que ocorreram durante a grande guerra mundial por exemplo, mas extrair desse acontecimento lições para o nosso mundo, talvez até com questionamentos filosóficos. Lembro que adorava estudar as grandes guerras, estratégias militares que deram certo, bombas que aniquilaram pessoas, massacre de civis, terrorismo... Em minha cabeça, não morriam pessoas e sim milhares de figurantes (era apenas um pré-adolescente “viajando”), porque aprendemos história como quem vê um filme de aventura.

Ao invés de “dissecarmos” uma célula, em Biologia, porque não nos transformamos em “ativista” ecológicos, é muito mais cômodo estudar os problemas do desmatamento, do aquecimento global e inúmeros outros como simples observadores, como se não participássemos do seu processo... Mas somos obrigados a perder tempo aprendendo como as células fagocitam.

Tenho a mais absoluta certeza que tais mudanças diminuirão drasticamente o índice de evasão nas escolas e a falta de interesse dos alunos, aumentando significamente o QI, o sentimento de cidadania, a consciência de que somos agentes ativos no mundo e o entendimento do “eu” (ser individual) perante o “nós” (sociedade). O mundo não precisa de intelectuais. A escola tenta, fracassadamente produzi-los em série.

1 comentário(s):

Su disse...

Putz, esse texto... disse tudo!
vc deveria ser promovido a ministro da cultura. Mas naum se preocupe, q vou te indicar.